CHORINHO - Emoção em ritmo genuinamente brasileiro





Mistura bem aventurada de uma série de estilos musicais, o chorinho conquistou o Brasil no início do século XX e se tornou marca registrada da música nacional. Fosse necessário escolher uma palavra para definir a emoção transmitida pelo chorinho, a opção seria "saudade", termo da língua portuguesa cujo sentido, embora vivenciado pelas pessoas do mundo inteiro, é difícil de ser compreendido por estrangeiros: denota um sentimento ambíguo, de tristeza, pela ausência de alguém, de algum lugar, objeto ou situação, ou de alegria por lembranças felizes ou pelo reencontro. Assim é o choro, música predominantemente instrumental, tocada em geral por virtuoses (pessoas extremamente talentosas e habilitadas, nem sempre com formação musical acadêmica). Excetuada em clima de "desafio", intérpretes disputam entre si quem toca melhor, mais rápido e mais bonito; ora transmite um lamento (especialmente quando letrada), ora se desenvolve num ritmo bastante rápido, alegre e contagiante, que remete a um tempo de ingenuidade, ironia e lirismo, características da sociedade das primeiras décadas do século XX. Caros leitores apresento-vos o chorinho.
Randerson Figueiredo.

"Naquele tempo não havia rádio nem televisão. Então havia um maior número de pessoas estudando música. Tocavam em festas, casamentos, aniversários, batizados... Zequinha de Abreu era muito tocado. Erothildes de Campos tocava em lojas da rua Direita; quantas vezes ele batia na porta de casas onde via um piano tocar, oferecendo sua música!... A Lapa (onde se tocavam muitas serestas e chorinhos pelos bares) era um bairro maravilhoso. Hoje não é mais por causa da violência...", conta o flautista João Dias Carrasqueira (1908-2000), num depoimento gravado para o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, em outubro de 1981. "Quem dançava se deliciava. Trouxe tantas felicidades!", rememorou na gravação.  

Nascido em Paranapiacaba, SP, João, o Canarinho da Lapa, era neto de irlandeses e cresceu ouvindo sua mãe entoar canções de roda tradicional daquele país. Tinha três irmãos músicos: um bandolinista, um flautista e um percussionista. Aprendeu a tocar flauta primeiramente com o irmão (José Maria Dias, flautista, poeta e compositor) e só depois começou a ter aulas. Sua ligação com a música e com a natureza era tão grande que tocava o sino na igreja com um toque alegre, que lembrava o compasso de um chorinho. Dizia também que falava com os pássaros por meio de sua flautinha de bambu.

As lembranças foram compartilhadas por um contemporâneo: Juracir Barreto Wey, violonista, em outro depoimento gravado pelo MIS. Nascido em Santa Isabel, SP, em 1910, foi apelidado de "Barão" devido a um chapéu que usava quando criança, que lhe emprestava um ar imponente.

O gosto pela música foi herdado do avô paterno, concertista no Rio de Janeiro, mas natural de Zurique, Suíça, além do convívio com dois primos músicos: um flautista, outro violinista. "Minha casa vivia cheia de gente. Tocadores de cítara havia uns dez. Tocavam um choro alegre. Tico-Tico no Fubá. Pixinguinha. Zequinha de Abreu. Não havia partitura, os músicos iam lá e tocavam de ouvido." O Barão revelou que ele mesmo, por incrível que pareça, não sabia uma nota! Havia flautistas também. Conta que houve ocasiões em que compravam partitura de piano e tocavam em outro instrumento.

Barão confessa que não aprendeu música por preguiça. Nunca foi solista. Gostava mesmo era de fazer acompanhamento. Em casa, prestava atenção na mão de quem tocava, depois ia treinar. Um comportamento também adotado por Arismar do Espírito Santo (também gravado pelo MIS); músico de uma geração mais recente, nasceu em Santos, SP, em 1956. Autodidata em violão, bateria, contrabaixo, guitarra e piano, diz que aprendeu tudo na raça, observando e perguntando. Também se tornou chorista a partir de uma tradição familiar. "Pelo menos uma vez por semana havia churrasco na casa de alguém, onde se tocava choro".

Pelas lembranças do Barão, além das pessoas famosas até hoje conhecidas como choristas, muita gente tocava, mas não tinha acesso às gravadoras. Havia uma porção de grupos. Essas pessoas tocavam, mas não viviam de música. Comerciários, bancários e gente simples, como escriturários e professores. Alguns tinham estudado música, outros iam na orelha mesmo. Menos de 50 % eram músicos.

Basta observar o título das canções para se depreender o espírito daquela época, que persiste até hoje entre os que se dedicam a esse gênero musical.

Às vezes bucólicos: "Flor Amorosa", "Tico-Tico no Fubá", "Urubu Malandro". 
Outras, romântico: "Carinhoso", "Naquele Tempo". 
Inocente: "André de sapato novo"
Nacionalista: "Brasileirinho"

A impressão é confirmada no artigo "Choro: Uma Expressão Musical Genuinamente Brasileira", em que Jailson Raulino, mestre em música pela Universidade Federal da Bahia, afirma que uma particularidade do choro é a fascinante liberdade literária dos autores na titulação, extravasando a meiguice, o romantismo, o humorismo, assim como o deboche e a pernosticidade.
Eis alguns exemplos: "A mulher é um diabo de saias", "Seu Derfim tem que vortá", e outros. Outro recurso é analisar o nome dos regionais (conjunto de instrumentistas que tocam choro): Galo Preto, Rabo de Lagartixa, Nó em Pingo D'água, e outros.

A literatura sobre a origem do choro considera que o gênero nasce do encontro entre os estilos musicais europeus, notadamente a polca, com um modo tipicamente carioca de interpretar esses gêneros. Algo que Pixinguinha definiria como "um negócio sacudido, gostoso".

Os estudiosos definem que o choro nasce no século XIX, do encontro da polca com a genialidade com que músicos como Callado, Nazareth e tantos outros chorões anônimos interpretavam este e outros gêneros musicais que aportavam no Brasil naquele período. No entanto, acredita que o choro ganha forma de fato com Pixinguinha, que além de consolidar sua estrutura musical, eleva a arte do improviso a um novo patamar na música instrumental brasileira. 

Não é mera coincidência caros leitores que o repertório pixinguinhano ainda hoje continue sendo uma das principais fontes de inspiração para as novas gerações "brincarem" com seus instrumentos. Até o Tom Jobim era louco pelo Pixinguinha! 

Na época havia um caldo de cultura formada pela polca, o xote, o maxixe, o tango, o samba e o lundu, que entrou em ebulição quando o povo, excluído dos salões da sociedade onde aconteciam os saraus, tertúlias (é o novo! haha) e concertos, adotou os instrumentos de corda (violão, cavaquinho e bandolim), de sopro (flauta e clarinete) e de percussão (pandeiro, ganzá), mais fáceis de carregar para as festas e serenatas do que um piano.

O resultado dá para imaginar, foi o nascimento do Choro no Rio de Janeiro que, considerado um instrumento de resistência da Música Popular Brasileira nos cem anos seguintes, espalhou-se pelo País.

O choro, popularmente conhecido como chorinho, foi associado à maneira chorosa com que os músicos tocavam a polca, o schottisch (xote), a mazurca, a valsa, enfim, os estilos musicais importados que influenciaram no seu surgimento. Acredito que o choro seja um estilo musical com regras e padrões flexibilizados e/ou mantidos, de acordo com a ação dos agentes envolvidos em sua perpetuação, permeados por uma complexa gama de sentimentos.


SAMBA-CHORO

Penso que o choro e o samba são como primos de segundo grau. Pixinguinha, Donga e João da Bahiana, geniais instrumentistas do choro, eram frequentadores das famosas reuniões na casa da Tia Ciata, um dos berços do samba carioca. A existência desse gênero híbrido conhecido como samba-choro e o fato de que, anos mais tarde, quando um dos dos maiores compositores do samba, o divino Cartola, vai gravar seu disco de estréia, o sambista convida ninguém menos do que Dino 7 Cordas para fazer os arranjos, já são fortes indicativos de que existia uma ligação harmônica entre os dois gêneros.

Não dá para pensar na história do samba apartando-o do choro. Por vezes se estabelecem certos cortes arbitrários na periodização da história da música popular brasileira como se o samba, nos anos 1930, tivesse destronado e sucedido o choro.

Na verdade, muitos sambas da década de 30 eram sambas-choro, como é o caso de "Recenseamento", de Assis Valente, na voz de Carmen Miranda. Por outro lado, conjuntos regionais como o de Benedito Lacerda, que se tornou célebre ao acompanhar os sambistas de maior prestígio nesse período - tinham uma constituição de base chorística (flauta, cavaquinho e violão), à qual se acrescentavam outros instrumentos.

O choro, além do mais, não será sequer deixado de lado em algumas criações dos bossa-novistas, que se nutrem, acima de tudo, no plano nacional, da tradição do samba. Vou lhes dar um exemplo clássico: "O que é, para me fixar num caso, 'Seu Chopin, desculpe', de Johnny Alf, um dos precursores da Bossa Nova, senão um choro com acento de um samba bossa-nova?".


A POSSÍVEL DECADÊNCIA DO CHORINHO

Na verdade a decadência do chorinho ocorreu em relação ao mercado de trabalho para os chorões. Basta pensar que Dino 7 Cordas pendurou o violão para tocar guitarra em bailes. Como competir com Roberto Carlos e a Jovem Guarda? Como competir com o samba em sua fase áurea?

É meus caros, a indústria cultural é implacável e só está interessada no produto que tenha demanda. Assim, o choro, ao ser paulatinamente substituído por outros gêneros musicais de maior aceitação e, por conseguinte, demaior lucratividade, ficou restrito aos seus cultores e mantes ardorosos.

Mas não pensem que ficou estagnado ou morto, como sugere a teoria de renascimento do choro tão veiculada pela mídia de um modo geral. Mas também não pensem que está ocorrendo um renascimento do choro, pelo simples fato de que o choro nunca morreu.

Leitura semelhante foi aplicada ao blues, que, supostamente, "renasceu" nos anos 60 com o boom do do British Blues e, mais recentemente, pelas mãos do guitarrista texano Stevie Ray Vaughan, hoje pelo contrário o choro conseguiu um alcance internacional.

Japão e França são alguns países onde já existem clubes de choro. E assim como a música popular brasileira de maneira geral é apreciada e respeitada no exterior, o choro também o é.

Na história recente do gênero, músicos como Joel Nascimento, Henrique Cazes e Hamilton de Holanda são alguns dos nomes relacionados ao choro que empolgam platéias estrangeiras com as proezas que fazem com seus instrumentos. 

E engana-se quem pensa que essa escola está com os dias contados por se fechar em si mesma. Tradicional ou moderno, o choro continua sendo uma tradição dialógica, que incorpora facilmente outras linguagens musicais ao seu universo. Se no princípio era a polca, a valsa, o schottisch, hoje, o rock, o pop, o tango fazem parte de seu universo também.


MULHERES CHORONAS

O machismo era um traço bastante importante da história do choro. Naquela época não havia mulheres tocando. Isso é coisa de dez anos pra cá. As Chiquinhas Gonzagas já se foram. Testemunha da seguinte forma o Barão: "Ela era peituda. Por necessidade. Tinha que lutar pela vida, pelo sustento dos filhos. Outras mulheres, mesmo como hobby, não participavam".

É um comportamento que persiste até hoje. Entre as poucas que ousaram, estão as integrantes do grupo Choronas, idealizado por Ana Claúdia Cezar, professora de violão e cavaquinho no Centro de Estudos Musicais Tom Jobim, em São Paulo. Ela conta que morava em Pinheiros e freqüentou desde criança o bar Clube do Choro, onde começou a tomar gosto pelo gênero. Mas relata que foi difícil formar o grupo, pois era difícil encontrar mulheres interessadas em tocar esse tipo de música e instrumentos.

Encontrou as musicistas Gabriela Machado, que toca flauta transversal; Paola Picherzky, violão, e Roseli Câmara, percussão. Com elas formou o grupo "Choronas", que desde 1994 vem apresentando obras consagradas ou desconhecidas, antigas ou recentes, no Brasil e em outros países, tendo lançado dois CDs.

Hoje, Ana Cláudia é uma das maiores incentivadoras de chorinho entre o público jovem. Toda semana oferece duas aulas de prática do choro a alunos interessados da Universidade Livre de Música. Diz que o choro nunca morreu, mas por se tratar de uma música essencialmente instrumental, tocada como disse por virtuoses, acabou se restringindo a um público mais erudito. Em suas apresentações pelo Brasil afora encontraram choristas em toda parte, o que as levou a idealizar um álbum com a participação de músicos de cada região.





CHORINHO, ESPALHANDO-SE PELO MUNDO

O empresário brasileiro Daniel Dalarossa pretende contribuir para a expansão do choro pelo país e pelo mundo, começando pelo Japão e pelos Estados Unidos. Apaixonado pelo gênero musical e por informática, criou a Choro Music, empresa e novo selo musical inteiramente dedicado ao choro, que irá comercializar pelo site choro music (que vocês podem conferir no final da postagem) songbooks acompanhados de CDs play-along (toque junto) dos principais compositores de choro, dos clássicos aos contemporâneos, a começar por Ernesto Nazareth. 

Os play-along podem ser acompanhados por instrumentistas de sax, flauta, clarineta, cavaquinho e violão. O empresário idealizou ainda a Fundação Cuore, onde 200 crianças carentes na Zona Sul de São Paulo deverão participar de atividades após a escola, incluindo o aprendizado do choro.


OS CONSTRUTORES DO RITMO NACIONAL








FATOS HISTÓRICOS - LINHA DO TEMPO 







Vocês devem estar se perguntando: mas será que ele não vai postar nenhuma música? Nem mesmo Ernesto Nazareth, com a sua famosa Odeon? 
Mas é claro que vou, eis que chegou a melhor hora de ouvir os monstros sagrados desse gênero tão magnífico que é o chorinho.




Odeon (Ernesto Nazareth) - Conjunto Som Brasileiro

                   







Raphael Rabello - Tico Tico no Fubá







Grandes mestres - Hermeto e Sivuca





Vejam que maravilha: Brasileirinho - guitarra portuguesa (Waldir Azevedo)









Yamandú Costa - Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro)











Yamandú Costa - Choro - Escorregando (Nazareth)











Pagode Jazz Sardinha's Club - Chorinho de Gafieira




       






Bole Bole (Jacob do Bandolim)








Indicação de leitura: 




ALMANAQUE DO CHORO: A HISTORIA DO CHORINHO, O QUE OUVIR, O QUE LER, ONDE CURTIR

Andre Diniz 
Editora: Zahar




Links relacionados: 
www.samba-choro.com.br
www.choronas.com.br
www.clubedochoro.com.br
www.choromusic.com.br

6 comentários:

  1. Amigo!
    Agradeça todos os dias a Deus pela sua inteligência.
    Foi um resumo completo sobre o chorinho. Um espetáculo!

    Eu sou chorão!!

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  2. Já imagino quem possa ser esse anônimo (João Paulo), valeu pelo elogio.
    Agradeço a Deus pelo dom da vida, de ter saúde e claro como você disse pela inteligência que ele nos proporciona.
    Quero dizer não só a você, que essa postagem foi indicação sua e agradeço pelo fato de ter feito essa indicação, afinal são vocês leitores que incrementam as postagens com indicações e com seus acessos.
    Obrigado mais uma vez pelo apoio e tudo de bom.

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