JUDITE - UMA VIÚVA SURPREENDENTE.




"Ela era estimadíssima por todos porque tinha muito temor a Deus e não havia ninguém que dissesse uma palavra em seu desfavor (Judite 16,26)"

O general assírio Holofernes aguarda com seu exército de 132 mil homens a poucos quilômetros da Judéia, pronto para subjugar o povo hebreu. A mensagem do militar era clara. Caso os judeus se recusassem a fazer parte do Império Assírio, seriam mortos sumariamente.

O povo de Israel treme com medo do fim. Os anciãos estão a ponto de entregar a comunidade ao inimigo invencível quando Judite, nossa adorável homenageada de hoje, uma viúva extremamente religiosa e casta, subitamente abandona a cidade vestida com uma roupa alegre, óleo perfumado no corpo, tranças no cabelo e jóias. 

Logo é feita prisioneira. Quatro dias depois, o general Holofernes é decapitado por Judite dentro de seus aposentos. Ao ver o corpo de seu comandante, os assírios batem em retirada.

Judite, em agradecimento, compôs um cântico, que atualmente compõe o capítulo do Antigo Testamento que leva seu nome. No texto, ela termina com as seguintes palavras: "Ai da nação que se levantar contra meu povo, porque o senhor se vingará dela. Ele enviará fogo e vermes sobre suas carnes, para arderem eternamente".

A história dessa heroína teve grande importância na tradição judaica. Durante séculos, serviu para motivar o povo judeu a lutar contra os inimigos e manter sua fé. Seu cântico entrou para a tradição oral das histórias judaicas e foi repetido de geração para geração. O texto caros leitores tinha um aspecto político muito forte, incitando a resistência contra o invasor, e um religioso, mostrando como era importante uma viúva se manter casta. Além disso o cântico enaltece o poder da oração e o respeito aos costumes.

FORA DO TEMPO

Para os estudiosos, não há dúvidas de que Judite é uma personagem fictícia. O principal motivo dessa tese é que a Bíblia situa de maneira irreal o tempo e o local onde teria se passado a história, e como o objetivo desse blog é elucidar fatos, vamos a eles.

"Betúlia, a cidade de Judite, nunca existiu", essa afirmação é da teóloga Amy-Jill Levine, da universidade Vanderbilt, dos Estados Unidos, especialista em Antigo Testamento.

Nabucodonosor, que aparece como rei da Assíria e chefe supremo de Holofernes, jamais governou a Assíria, mas sim a Babilônia, o que todo mundo na época do Antigo Testamento sabia. Para piorar, o imperador viveu por volta do ano 600 a.C., quando nem sequer existia Israel, nação que é o cenário do livro de Judite, perceberam que os fatos não coincidem, é como dizer que George Bush descobriu o Brasil (até mesmo porque estaríamos fritos se isso acontecesse).

O Livro de Judite foi escrito entre o ano de 200 a.C. e 100 a.C. Nessa época, os judeus foram obrigados a bandonar os ensinamentos da Torá, como a prática da circuncisão, o respeito ao dia sagrado do sábado e a distinção entre alimentos puros e impuros, por ordem do governo de origem grega na Palestina.

Em 167 a.C., os hebreus se revoltaram e teve início assim, a Guerra dos Macabeus contra o exército dominador, mais adiante escreverei sobre essa guerra, o Livro de Judite claramente tem esse conflito como pano de fundo. O que quero dizer é que os leitores da Torá sabiam disso, por isso não importava que a história fosse situada num lugar e num tempo fictícios.

Caros leitores, estão percebendo onde quero chegar com minhas astúcias de escritor? Que Judite simboliza Israel, que vence o invasor com astúcia, não com a força. Ela usa elementos como a sedução e a inteligência para derrotar um exército enorme, transmitindo assim valores importantes, como a castidade e a oração.

A GUERRA DOS MACABEUS - Judite inspirou os hebreus a se revoltar contra o domínio de Antíoco.

No ano de 167 a.C., o rei de descendência grega Antíoco IV, que governava a Palestina, baixou uma lei impedindo o culto a um só deus e proibindo práticas judaicas. Circuncidar um bebê, ler a Torá e observar os rituais sagrados podiam ser punidos com a morte.

Antíoco também impôs o culto a vários deuses e determinou que os judeus seguissem as práticas gregas no Templo de Jerusalém. O sacerdote Matatias não aceitou as imposições e se mudou para as redondezas de Jerusalém, levando seus cinco filhos. Vários camponeses os seguiram.

Um dos filhos de Matatias, Judas Macabeu, organizou essas pessoas e começou uma ofensiva querrilheira contra os dominadores. Três anos depois do início da revolta, os guerrilheiros libertaram Jerusalém do domínio de Antíoco. 

Os judeus venceram os exércitos inimigos porque Antíoco tinha problemas mais graves para resolver, como um possível ataque romano aos seus domínios. A história com certeza foi muito impactante e deu ao povo hebreu a sensação de que, usando a inteligência, eles poderiam vencer o conquistador, portanto meus caros, essa guerra inspirou o Livro de Judite, pois existe uma clara proposta política no livro que incita a ação.

PLANO ASTUCIOSO

Mesmo fictício, o rico relato da saga de Judite vale a pena ser conhecido. o texto define a heroína como coloquei no título da postagem "estimadíssima por todos porque tinha muito temor a Deus e não havia ninguém que dissesse uma palavra em seu disfavor" (Judite 8,8).

Quando seu povo estava sob o cerco de Holofernes, ela avisa aos mais velhos que irá partir para tentar salvá-los e pede para que rezem por ela.

O Senhor aumentou-lhe a formosura, a fim de que parecesse aos olhos de todos de incomparável beleza, conta a Bíblia. Judite e sua criada partem levando vinhos. Assim que as duas descem as montanhas onde viviam os hebreus, elas são presas pelos guardas assírios e levadas à presença de seu comandante. Chegando lá, Judite faz um discurso, dizendo a Holofernes estar certa da vitória dele.

Era por isso que elas tinham deixado a Judéia, diz ela. o general, encantado com a beleza e a sabedoria da prisioneira, faz um convite para ela ficar no acampamento. Nos dias em que permanece com o inimigo, Judite sai a cada aurora para orar. o gesto era uma estratégia premeditada para despistar os guardas quando chegasse a hora da fuga.

No quarto dia, o general oferece uma ceia e bebe o vinho que Judite havia levado. Ela se mantem sóbria. Logo, ambos seguem para os aposentos do general, a sós. Ele cai bêbado e Judite aproveita para cortar sua cabeça.

Ela e a criada fogem durante a aurora com a cabeça de Holofernes, fingindo que iam fazer a oração diária. Os soldados não desonfiam. Quando encontram o corpo de Holofernes, ficam apavorados e fogem. Os hebreus perseguem os assírios e matam todos que conseguem.

Os anciãos dizem a ela: "Tu és a alegria de Israel, a honra do nosso povo, porque teu coração foi cheio de força e amaste a castidade" (Judite 15,10). 

Judite morre com 105 anos. Enquanto viveu, ninguém ousou perturbar a paz em Israel, diz a Bíblia.   

   

2 comentários:

  1. pois é acredito nos estudiosos cada vez mas, creio que muitas historias bíblicas são realmente fictícias, sempre que posso vejo matérias divulgadas sobre a antiguidade e é muito interessante a busca pelo verdadeiro conhecimento dos fatos.
    abraços
    Judite Alves

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  2. Primeiro quero agradecer o comentário que fizeste, obrigado.
    Segundo, concordo que a busca pelos verdadeiros fatos são indispensáveis a qualquer historiador.
    Sempre que possível irei escrever sobre histórias bíblicas. A história da sua xará é fantástica.
    Abraço e tudo de bom. Volte sempre.

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