MAUÁ, APENAS DESLOCADO NO TEMPO.



'Se enxerguei mais longe, foi por estar de pé sobre os ombros de gigantes' Isaac Newton (1642 - 1727), Carta a R. Hooke, 5 de fevereiro de 1675.

Irineu, depois barão, depois visconde de Mauá, foi o homem certo, no lugar certo, porém infelizmente, na hora errada. Primeiro, o homem certo. Certo porque ele foi o precursor da embrionária indústria pesada brasileira, resultado de seu fascinante tino para os negócios, cujas faculdades lhe garantiram o enriquecimento.

Talvez (detesto usar essa palavra) seu sucesso seja apenas fruto da infância interrompida pela morte do pai, que o obrigou a enfrentar a vida frente a frente. Mas tal situação não é semelhante a qual meninos e meninas são forçados a encarar atualmente? Na verdade, o homem que se tornou visconde de Mauá tinha algo mais.

Sinceramente, ao ler sua biografia fiquei espantado com seus feitos, consegui depreender que ele fez de seu lema 'quem cedo madruga, Deus ajuda'. Não tinha medo do trabalho e aproveitou a primeira grande oportunidade que a deusa Fortuna lhe ofereceu, ainda aos sete anos de idade, para trabalhar num próspero ponto comercial do Rio de Janeiro do século XIX.

Teve contato com outros comerciantes e empresários, além de banqueiros, tanto do Brasil, como do exterior, o que lhe proporcionou condições de criar seus próprios valores, sendo que um dos principais era a paixão pelo Brasil e por seu desenvolvimento. No auge de seus negócios, abandonou tudo e investiu sua fortuna pessoal em indústrias (por sinal as primeiras do país), bancos, estradas de ferro, companhias de navegação e serviços públicos. E seus tentáculos não foram modestos quando levou seus empreendimentos ao Uruguai, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra e França. Na prática, chegou a possuir bancos em todos esses países, estaleiros no Brasil e Uruguai, três estradas de ferro no interior do Brasil, uma fundição, uma companhia de navegação, empresas de comércio exterior, mineradoras, usinas de gás e fazendas de criação de gado, totalizando 17 empresas em seis países, sendo que o valor total de seus ativos era maior que o orçamento do Império do Brasil de dom Pedro II (1825-1891).

E administrava tudo isso sozinho, com mão de ferro. Seu sucesso era fruto de uma fórmula comum hoje em dia: muito estudo e mais ainda trabalho. Contudo, tanto êxito, como não poderia ser diferente, suscitou a inveja de seus contemporâneos, sobretudo do próprio imperador. Eram ministros, senhores de engenho, feitores, enfim, a nata da sociedade brasilera de seu tempo não aceitava que um homem prosperasse sem depender do imperador. Ao contrário: o imperador dependia do dinheiro do capital de Mauá para subsidiar investimentos no Brasil.


Até a primeira metade do século XIX, o Brasil tinha grandes dificuldades para assentar o franco desenvolvimento de seu parque industrial. A carência de fontes de energia abundantes, a dispersão dos mercados consumidores, a inexistência de uma indústria de base e a falta de vontade política compunham uma gama de obstáculos que transformava os produtos brasileiros caros e de baixa qualidade. Contudo, a partir de 1840, essa realidade vigente ganhou outros contornos.





No ano de 1844, a criação da Tarifa Alves Branco elevou os impostos alfandegários sobre os produtos provenientes do mercado externo. Apesar de não ter esse objetivo, o imposto se transformou em uma eficiente barreira protecionista que abriu portas para o primeiro surto industrial experimentado na história do Brasil. Paralelamente a esta ação, devemos salientar que a proibição do tráfico negreiro e os lucros obtidos pelo café tiveram grande importância neste processo.

Nessa mesma década, um jovem chamado Irineu Evangelista de Sousa viajava a trabalho para a Inglaterra, berço da Revolução Industrial. Ao observar o acentuado desenvolvimento das indústrias daquele país e a pujança das teorias liberais, Irineu voltou ao Brasil determinado a buscar oportunidades de negócio que orbitavam fora da ordem agroexportadora. Para a época, as suas pretensões estavam bem distantes do pensamento de uma parcela considerável de nossas elites.

De origem humilde, este arrojado empreendedor saiu cedo da cidade de Arroio Grande para, com apenas doze anos de idade, trabalhar em uma loja de tecidos na capital federal. Apresentando grande tino para os negócios, ele logo arranjou outra colocação em uma empresa de importação. Foi nesse momento que Irineu entrou em contato com os valores e a lógica do capitalismo industrial que fervilhava nos centros urbanos ingleses.

Quando chegou ao Brasil, ele decidiu juntar seus recursos financeiros para adquirir uma pequena fundição localizada na região de Ponta da Areia, no Rio de Janeiro. Com o apoio financeiro de seu antigo patrão, Irineu Evangelista conseguiu meios para organizar o maior estaleiro de construção naval de todo o Império Brasileiro. Aproveitando dos bons ventos trazidos pelo surto industrial, seus empreendimentos deram boa resposta e abriram caminho para outras iniciativas. 

Em pouco tempo, o próspero empresário criou a Companhia de Rebocadores da Barra do Rio Grande e obteve uma concessão sob o tráfico no rio Amazonas. Paralelamente, sua empresa de siderurgia fabricava lampiões e tubos para a canalização de rios e pontes. No ano de 1851, conseguiu autorização para instalar um serviço de iluminação a gás que se estenderia pelas principais ruas da cidade do Rio de Janeiro. No ano seguinte, iniciou as obras de construção de uma ferrovia que ligava a capital ao Vale do Paraíba.

Por meio da construção dessas e outras obras ferroviárias, o visionário Irineu conquistou o título de Barão de Mauá. Trabalhador incessante, ele também investiu em uma empresa de bondes puxados por tração animal e na construção de um telégrafo submarino que ligava o Brasil à Europa. Além disso, ele também atuou como financiador com a criação do Banco Mauá & Cia., que chegou a abrir dezenas de filiais no exterior.


ESTUDO + TRABALHO = SUCESSO


Irineu chegou ao Rio de Janeiro em 1823, desembarcando no largo do Paço. Certamente seus olhos jamais registraram a visão de tanta gente, de tantas culturas diferentes num único lugar. No século XIX, era comum o emprego de jovens, mesmo que os jovens tivessem apenas dez anos de idade, como caixeiros que na verdade, eram uma espécie de faz-tudo: organizavam as mercadorias, limpavam o lugar, entre outras atividades.

Como não seria diferente começou a despontar no negócio e a despertar em Carruthers um sentido mais forte do que a simples relação empregado-empregador. Quando o comerciante desejou voltar à sua terra, em 1836, fez de Irineu então com 22 anos de idade seu sócio. Cedeu um volume de capital que já o tornava praticamente um novo rico e deixou uma empresa sob sua responsabilidade.

Os anos seguintes seriam decisivos para o futuro que Irineu apenas havia começado a desenhar. Em 25 de outubro de 1837, comprou a sua primeira residência, deixando para trás aquela vida conjugada de morador e trabalhador na Carruthers & Co.

Com essa novíssima perspectiva de liberdade, passou a praticar a sua autopromoção, influenciado pelos hábitos de seu antigo patrão, João Rodrigues, e pela vida maçon de Carruthers.

O ERRO FATAL


'Jamais farei mal a terceiros'. Foi com essa frase que o barão de Mauá cavava a sepultura de seus negócios. Iniciado em 1867 e concluído em 1870, o processo de comprometimento de seus bens pessoais foi sua ruína. Seu único interesse era limpar o próprio nome e evitar que qualquer sócio tivesse prejuízo. Num momento histórico onde as pessoas ganhavam dinheiro trapaceando e prejudicando os demais, o barão tinha em mente que a confiança que seus parceiros haviem depositado em sua imagem, era seu bem mais valioso.

Ele tinha razão, mas seu erro fatal tem um nome: zelo.

O erro de Mauá caro leitor foi o próprio Brasil e o maior perdedor nessa história toda.

Mauá foi desfazendo-se de cada uma de suas empresas, tanto no Brasil, como no exterior. Como era um homem de negócios, obteve um prazo para obter o dinheiro, sendo possível evitar a 'queima' desenfreada de seu patrimônio. Começou desfazendo-se de seus objetos pessoais tais como prataria, jóias de sua esposa, presentes, entre outros. Por ele venderia até as calças para limpar seu nome.

Depois começou a leiloar suas empresas, sempre com cautela, evitando receber um valor muito menor que as mesmas valiam. Fez tudo isso com relativa tranquilidade, conseguindo manter um pequeno caixa em dinheiro. Ao final de uma dura jornada, em 20 de maio de 1881, dirigiu-se ao juiz de falência para finalizar os acordos. E conseguiu seu objetivo: estava com o nome limpo, sem dívidas, mas também sem empresas. Seu registro de comerciante, que havia sido cassado durante a insolvência do Banco Mauá, foi-lhe devolvido. Sentia-se novamente honrado.

Durante esse período de decadência forçada, o barão teve outra oportunidade de mostrar para que tinha vindo ao mundo. Em 1871, dom Pedro II decidiu fazer uma viagem de turismo à Europa, deixando o governos nas mãos de José Maria da Silva Paranhos (1845-1912), o visconde de Rio Branco.

Este, que era um dos poucos amigos do barão, incumbiu-o de tocar mais um projeto, totalmente financiado pelo governo brasileiro. Tratava-se da implantação do cabo submarino que ligava o Brasil à Europa. O barão, apesar de contar com 58 anos de idade, aceitou o desafio com a única exigência de não se envolver com nenhum credor, acionista ou investidor do projeto. Queria apenas administrá-lo e implantá-lo. Serviço que aliás, fez com louvor, dentro do prazo e orçamento estabelecidos, e lhe rendeu o novo título de visconde de Mauá.

A partir do momento em que recebeu seu registro de comerciante, o senhor Irineu, já com o peso dos anos e das batalhas no rosto, resolveu descansar. Em 1886, descobriu que tinha diabetes, e foi procurar tratamento em Londres. No regresso, frequentava estâncias de águas de Minas Gerais ou São Paulo. Porém, seu trabalho aqui já estava feito. Em 21 de outubro de 1889, o visconde de Mauá faleceu em Petrópolis. Seu corpo foi levado de trem para o Rio de Janeiro (na estrada de ferro outrora inaugurada pelo próprio Irineu), onde foi enterrado na atual praça Mauá. 

É curioso pensar que, apenas três semanas depois, a República seria proclamada, em 15 de novembro. O fim de Mauá coincidiu com o fim do império. É por isso que sua vida estava deslocada apenas no tempo. Seu legado não poderia ser entendido pelos pobres e tolos brasileiros do século XIX. A coragem e convicção nas crenças só seria repetida no Brasil décadas mais tarde, com a inauguração da maior rede de televisão do país, pelo jornalista Roberto Marinho (1904-2003), já passando dos 60 anos de idade. Mas, naquele momento da história do Brasil, no século XIX, saiam de cena o imperador e o rei.

Download do livro que tive como referência:

Mauá - Empresário do império




Mauá - Empresário do Império - Jorge Caldeira - jar - (Java E-book).7z      





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2 comentários:

  1. Esse cidadão realmente foi alguem a frente de seu tempo. O livro é muito bom.

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  2. O livro é excelente Maurício C. N, conta detalhes de sua vida, sua infância e principalmente de seu amadurecimento como um homem de negócios. Percebi que Mauá foi um homem honesto em suas convicções e atitudes algo raro no mundo dos negócios. Ele foi á falência total como você leu em meu artigo, isso demonstra hombridade. Faça o download do livro e deleite-se com este emocionante relato histórico. Obrigado pela visita e volte sempre. Abraço fraterno.

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