NERO - ASSASSINO COM ALMA DE ARTISTA

                                                                       
                                                                          Nerópolis
Megalômano, o imperador Nero apresentou ao Senado um projeto: derrubar quase metade da Roma Antiga para erigir palácios e construções magníficas. O nome da nova cidade seria Nerópolis. A indignada recusa do Senado impediu a realização dos planos do tirano, mas acabou por torná-lo principal suspeito pelo grande incêndio que queimou cerca de um terço de Roma. Em tempo: o fogo consumiu também a área destinada aos palácios reais, que começaram a ser erguidos ainda sobre as cinzas quentes.


O ano era de 64 d.C. Em Nápoles, no sul da atual Itália, um novo artista fazia sua estreia para o grande público. Loiro, olhos azuis pálidos e quase obeso, ele encenava descalço, usando apenas  uma túnica. Tocava lira e cantava composições de sua própria autoria. O público - gostando ou não da apresentação - não podia abandonar o recinto, sob pena de morte. Entre os espectadores, uma mulher entrou em trabalho de parto e deu à luz ali mesmo. Alguns chegavam a simular desmaios para ser, piedosamente, arrastados para fora do teatro.
O Senado romano prostrava-se de vergonha. Afinal, o artista em cena era ninguém menos que o imperador romano Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus. 
Paranóico, megalomaníaco, assassino: esse era o perfil do ditador que manteve o Império Romano curvado às suas vontades durante os 14 anos de seu reinado. O curioso é que, a princípio, ele não tinha chances de sentar-se no trono.    

Nero só conquistou o poder por obra e graça de sua mãe, que fez e aconteceu para ver o único rebento no topo da pirâmide do vasto império.

Nero nasceu Lucius Domitius Ahenobarbus, filho do casal Gnaeus Domitius Ahenobabus e Agrippina. Em tempos de sexo livre, a mãe do pequeno Lucius acumulava funções no reino. Era ao mesmo tempo, amante e irmã do então imperador Calígula. Como o todo-poderoso não tinha herdeiros, Agrippina trabalhava nos bastidores para aproximar o filho do tio. Sem sucesso ela iniciou uma conspiração contra o irmão/amante,  e acabou exilada em uma ilha no sul da península, hoje Sicília. Enquanto Agrippina vivia afastada da corte, seu marido morreu vítima de um edema. Eo grande Calígula foi assassinado. Lucius tinha na época apenas dois anos de idade. Quem assumiu as rédeas do Império Romano foi Tiberius Claudius Nero Caesar Drusus, também sobrinho de Calígula.

Com o soberano morto, a ambiciosa Agrippina pôde retornar à sede do poder. Viúva, ela se casou com o milionário Gaius Sallustius Passienus Crispus, envenenou-o pouco tempo depois, abocanhou a fortuna e iniciou um romance visceral com o novo imperador, Claudius. Para levá-lo ao altar, a mestra das artimanhas usou mais uma vez, sua habilidade. Conseguiu que Messalina (foi a terceira mulher do imperador Cláudio), a rainha, fosse condenada à morte por suspeita de conspirar contra o próprio marido.

Em janeiro de 49 d.C., Agrippina tornou-se a quarta esposa do imperador Claudius. Assim, Lucius, então com 13 anos, pulou para o primeiro lugar na fila de sucessão do trono romano, sob a alcunha de Nero Claudius Caesar Drusus. O filho legítimo do soberano, Britannicus, era mais jovem do que o agora filho adotivo de Claudius. Vale lembrar que a adoção era comum por membros da casta senatorial na Roma Antiga. A necessidade de herdeiros homens e as vantagens de cimentar a união entre famílias popularizaram o costume, levando imperadores a adotar seus escolhidos para a sucessão do trono.

Mais do que filho adotivo, Nero tornou-se o xodó de Claudius, que adiantou a maioridade do enteado para 14 anos e o casou com sua filha Octavia. Depois de tantas tramas novelescas, a coroação finalmente aconteceu, no dia 13 de outubro de 54 d.C.:
Claudius morreu e Nero, com apenas 17 anos de idade, se viu imperador de Roma. A atriz principal dessa trama não poderia ficar de fora desse espetáculo, Agrippina assassinou o marido para antecipar a subida do filho ao poder. Ela acreditava que poderia governar pelas mão de Nero, só que ela teria uma péssima surpresa.

Nos primeiros cinco anos de reinado, Nero não deu palpite nos assuntos administrativos. Dividia seu tempo entre corridas de bigas e animadas orgias. O comando do império ficou mesmo nas mão de... adivinhem: ela mesma, Agrippina.

Esse período é conhecido como Quinquennium Neronis. Foi marcado pela paz e boa administração. Os problemas começaram quando Nero se apaixonou pela escrava Cláudia Acte, um romance que não teve a aprovação de sua genitora. O adolescente cedeu lugar, então, ao tirano. Contra todas as expectativas, Nero rompeu com a mãe e incorporou no nome o título de Augusto, que significa "venerável".
A dominadora mãe, não queria deixar de ser atriz principal para ser uma mera atriz coadjuvante, não aceitou a independência do filho. Começou a conspirar para colocar Britannicus, filho legítimo de Claudius, no poder. O imperador, porém, agiu primeiro: o príncipe morreu envenenado durante um jantar. E Agrippina estava com os dias contados.

Embriagado pelo poder, Nero virou Roma de cabeça para baixo. Promovia orgias homéricas e mergulhava na jogatina. Nessa época, ele assumiu publicamente dois amantes: Marcus Salvius Otho e Poppaea. Dizia-se esposa do primeiro e marido da segunda. Com tal ousadia conseguiu escandalizar o liberal império. Em 59 d.C., no entanto, deixou os súditos verdadeiramente de cabelos em pé ao planejar a morte da própria mãe. As primeiras quatro tentativas de assassiná-la foram em vão, envenenamento. Na quinta, a velha tirana acabou esfaqueada.

Já paranóico e com mania de perseguição, o imperador voltou sua ira para a esposa, Octavia. Conseguiu o divórcio, alegando infertilidade,e , em seguida matou-a casando-se com a amante Poppaea. A loucura de Nero ainda estava longe de atingir o ápice. Com a saída de Seneca e Burrus, os dois principais conselheiros do governo, o imperador trouxe para sentar-se ao seu lado outro amante: Gaius Ofonius Tigellinus, um sujeito ambicioso, que jogava ao mesmo tempo a favor e contra Nero. Sob a orientação do novo conselheiro, o soberano instituiu a caça às bruxas, matando os inimigos.

Em julho de d.C., o reinado de Nero pegou fogo. Literalmente. A culpa do imperador no incêndio que destruiu Roma não é um fato historicamente comprovado, fato é que Nero jogou a culpa nos cristãos. E, depois passou a dedicar boa parte do seu tempo na tentativa de destruir a religião. Um de seus castigos prediletos era atirar religiosos aos leões na arena. O público vibrava, é claro que naquela época as pessoas já gostavam de desgraças. Outro costume do imperador era queimar cristãos vivos para iluminar os jardins do palácio à noite. Entre as vítimas de Nero estão São Pedro  e  São Paulo, que teriam sido crucificados e decapitados a mando do imperador.

Mas os dias de Nero estavam chegando ao fim. Em 68 d.C., ele foi deposto pelo Senado. E, no mesmo ano, cometeu suicídio. Existem duas versões para a morte do tirano. Para uma corrente de historiadores, o imperador teve a ajuda do escriba Epaphroditos para abrir a própria garganta com uma adaga. Para outr, quem o auxiliou foi Sporus, outro de seus tantos amantes e secretário. As palavras de Nero antes de morrer, porém, estão devidamente registradas:
            "O mundo acaba de perder um grande artista."


Referência bibliográfica: Sangue e Esplendor - A história dos piores tiranos da humanidade / Daniel Myerson / Ediouro




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