Simplesmente José Saramago.





O escritor português José Saramago morreu aos 87 anos em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, nesta sexta-feira (18). A informação foi divulgada pela família do escritor de "Ensaio sobre a cegueira" e confirmada em seu site oficial.
"Hoje, sexta-feira, 18 de junho, José Saramago faleceu às 12h30 horas [horário local] na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila", diz uma nota assinada pela Fundação José Saramago e publicada na página do escritor na internet.

É com grande pesar que escrevo esse artigo, como fã incondicional que sou da literatura portuguesa e porque não falar, fã de José Saramago, o blog Pistas da História presta uma singela homenagem a esse grande expoente da literatura, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 1998 e de uma condecoração Camões, a maior honraria que um escritos pode receber, que contribuiu de forma incessante para o crescimento da língua portuguesa mundialmente falando.

Li dois de seus maravilhosos livros, Ensaio sobre a cegueira e O Evangelho segundo Jesus Cristo, o primeiro narra a história de uma cegueira branca em que sinceramente está inserida a sociedade atual, uma cegueira social, como se estivéssemos brincando de cabra-cega; o segundo traz uma reflexão bastante contundente da figura de Jesus Cristo, aliás Saramago é bem contundente quando o assunto é religiosidade, essa é uma de suas marcas registradas, ainda não tive a oportunidade de ler seu último livro, Caim, lançado em 2009 mas a essa altura já deve estar esgotado nas melhores livrarias.

Não só como escritor, mas também como um excelente ser humano, José Saramago procurou ajudar as vítimas do terremoto que sacudiu Haiti em janeiro, permitiu que a renda de um de seus livros fosse revertida para ajudar aquele povo que passara por aquela catástrofe, na quantia de R$ 15.000.000,00 seria revertido às vítimas do terremoto que devastou Porto Príncipe.

Aluno brilhante, ele teve de abandonar o ensino secundário aos 12 anos, por causa da falta de recursos de seus pais.
Antes de se dedicar plenamente à literatura, ele foi serralheiro, mecânico, editor e jornalista.
Ateu, cético e pessimista, Saramago sempre teve atuação política marcante e levantava a voz  contra as injustiças, a religião constituída e os grandes poderes econômicos, que ele via como grandes doenças de seu tempo.

Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário", disse em dezembro de 2008, durante apresentação em Madri de "As Pequenas Memórias", obra em que recorda sua infância entre os 5 e 14 anos.
Autodescrito como um "comunista libertário", ele também provocou polêmica ao chamar a Bíblia de "manual e maus costumes".

Ao longo de seis décadas de carreira literária, publicou cerca de 30 obras, entre romances, poesia, ensaios, memórias e teatro.
Saramago publicou seu primeiro romance, "Terra do pecado", em 1947.
Em 1969, sob a ditadura salazarista, ele filiou-se ao Partido Comunista português, que na época estava na clandestinidade. O regime de Salazar caiu na Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974.

Depois de 47, ele ficou quase 20 anos sem publicar, argumentando que "não tinha nada a dizer". Na época, teve empregos públicos e trabalhou como editor e jornalista.
Entre 1966 e 1975, publicou poesia, apesar de depois ter dito mais tarde que se considerava apenas um "bom poeta". Lançou os títulos "Os Poemas Possíveis", "Provavelmente alegria" e "O ano de 1993".
Em 1977, publicou o romance "Manual de pintura e caligrafia". Depois, vieram os contos de "Objeto quase" (1978) e a peça "A noite" (1979).
Mas o reconhecimento mundial só chegou com "Memorial do convento", de 1982, a que se seguiu "O ano da morte de Ricardo Reis", dois anos depois.

Os dois romances receberam o prêmio do PEN Clube Português.
Seu romance "O Evangelho segundo Jesus Cristo", de 1991, provocou polêmica com a Igreja Católica e foi proibido em Portugal em 1992. O romance mostrava um Jesus humano, com dúvidas, fraquezas e conversando com um Deus cruel. Em um dos episódios, Jesus perdia sua virgindade com Maria Madalena.
Um ano depois disso, ele decidiu se mudar para a ilha de Lanzarote, no arquipélago espanhol das Canárias, onde ficou até morrer, sempre acompanhado pela sua segunda mulher, a jornalista e tradutora espanhola Pilar del Río.

Em 1995, ganhou o Prêmio Camões pelo conjunto da obra e publicou "Ensaio sobre a cegueira", que ganharia versão cinematográfica, dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, em 2008.
Em 1998, ele ganhou o Nobel de Literatura. Na justificativa da premiação, a academia afirmou que o português criou uma obra em que, "mediante parábolas sustentadas com imaginação, compaixão e ironia, nos permite captar uma realidade fugitiva".

Nos últimos anos foi hospitalizado em várias oportunidades, principalmente devido a problemas respiratórios.
Neste período, ele produziu com frequência, consciente de sua idade avançada e de que "tinha ainda algo a dizer".
Seu último romance foi "Caim", de 2009, também bastante criticado pela Igreja Católica por conta de sua visão pouco ortodoxa do Velho Testamento.

Ele planejava um romance sobre a indústria armamentista, como disse em entrevistas no lançamento de "Caim", em novembro passado.
"Não será sobre o Corão, mas será sobre algo tão importante quanto todos os corões do mundo: por que não há greves na indústria do armamento? Uma greve na qual os operários digam: 'Não construímos mais armas'", disse.

Em um de seus relatos, ele cita que necessitamos de filosofia (o curso que escolhi para seguir em frente minha carreira acadêmica), ele cita da seguinte maneira: “Acho que na sociedade atual falta filosofia. Filosofia como espaço, luta, método de reflexão que pode não ter objetivo determinado como a ciência que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que sem idéias não vamos a parte nenhuma”.

Esse foi seu último texto publicado em seu blog, chama-se Pensar, Pensar.
Vejam o vídeo que faz referência a morte desse grande escritor que foi ao ar às 10:00 horas pelo canal Globo News:



LEIA TRECHOS DE LIVROS DE JOSÉ SARAMAGO

Um estilo próprio de pontuar aliado à criação de um dos universos mais sólidos e pessoais da literatura mundial fizeram do escritor José Saramago, morto nesta sexta-feira (18), aos 87 anos, nas Ilhas Canárias, um dos nomes mais importantes da cultura do século XX.

Leia, abaixo, trechos de algumas de suas mais importantes obras publicadas pela editora Companhia  das Letras.

A JANGADA DE PEDRA (1988)



"(...) De sobrolho carregado, eis o que o rei começou por dizer à rainha, Estou duvidando, senhora, Quê, meu senhor, O presente que demos ao primo maximiliano, quando do seu casamento, há quatro anos, sempre me pareceu indigno da sua linhagem e merecimentos, e agora que o temos aqui tão perto, em valladolid, como regente de espanha, por assim dizer à mão de semear, gostaria de lhe oferecer algo mais valioso, algo que desse nas vistas, a vós que vos parece, senhora, Uma custódia estaria bem, senhor, tenho observado que, talvez pela virtude conjunta do seu valor material com o seu significado espiritual, uma custódia é sempre bem acolhida pelo obsequiado, A nossa santa igreja não apreciaria tal liberalidade, ainda há-de ter presentes em sua infalível memória as confessas simpatias do primo maximiliano pela reforma dos protestantes luteranos, luteranos ou calvinistas, nunca soube ao certo, Vade retro, satanás, nem em tal tinha pensado, exclamou a rainha, benzendo-se, amanhã terei de me confessar à primeira hora, Porquê amanhã em particular, senhora, se é vosso costume confessar-vos todos os dias, perguntou o rei, Pela nefanda ideia que o inimigo me pôs nas cordas da voz, olhai que ainda sinto a garganta queimada como se por ela tivesse roçado o bafo do inferno. Habituado aos exageros sensoriais da rainha, o rei encolheu os ombros e regressou à espinhosa tarefa de descobrir um presente capaz de satisfazer o arquiduque maximiliano de áustria. A rainha bisbilhava uma oração, principiara já outra, quando de repente se interrompeu e quase gritou, Temos o salomão, Quê, perguntou o rei, perplexo, sem perceber a intempestiva invocação ao rei de judá, Sim, senhor, salomão, o elefante, E para que quero eu aqui o elefante, perguntou o rei já algo abespinhado, Para o presente, senhor, para o presente de casamento, respondeu a rainha, pondo-se de pé, eufórica, excitadíssima, Não é presente de casamento, Dá o mesmo. O rei acenou com a cabeça lentamente três vezes seguidas, fez uma pausa e acenou outras três vezes, ao fim das quais admitiu, Parece-me uma ideia interessante, É mais do que interessante, é uma ideia boa (...)"






CAIM (2009)



"Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva."






OBRAS DE JOSÉ SARAMAGO

Veja, abaixo, uma lista de romances de autoria do escritor já publicados.

"Terra do pecado"
"Manual de pintura e caligrafia"
"Levantado do chão
"Memorial do convento"
"O ano da morte de Ricardo Reis"
"A jangada de pedra"
"História do cerco de Lisboa"
"O Evangelho segundo Jesus Cristo"
"Ensaio sobre a cegueira"
"Todos os nomes"
"A caverna"
"O homem duplicado"
"Ensaio sobre a lucidez"
"As intermitências da morte"
"As pequenas memórias"
"A viagem do elefante"
"Caim"

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