Pistas da História entrevista: Eliana Sales Paiva.




A partir deste mês lanço a nova série do blog: Pistas da História Entrevista.
Mestres, Doutores, psiquiatras, psicólogos, jornalistas e historiadores passarão por aqui, lançando suas teses e sendo questionados em determinados pontos.
E a primeira entrevistada é a professora da Universidade Estadual do Ceará Eliana Sales Paiva, Mestra em filosofia pela UFMG e pela UFC.
A entrevista foi pautada nos seguintes temas: A loucura em Sade, doenças da moda(depressão e síndrome do pânico) e medidas terapêuticas aplicadas por psicólogos e psiquiatras. 
Com seu senso crítico lança um olhar interessante sob esses temas tão comuns atualmente.  


Pistas da História Entrevista: Professora Mestra Eliana Sales Paiva
Tema: A loucura em Marquês de Sade.
Doenças da moda – depressão e síndrome do   pânico.
Medidas terapêuticas.

Pistas da História – Por quê Marquês de Sade não é visto com bons olhos pelos filósofos da Academia?

Eliana Paiva – Primeiro porque a Academia é muito exigente né!?! Ela pressupõe um estudo científico.
Marquês de Sade não tinha essa preocupação, a preocupação do Sade é fazer uma crítica ao seu tempo. Uma crítica a aristocracia do seu tempo, a burguesia do seu tempo, aos regimes políticos do seu tempo que ele era privilegiado, é um método de ruptura da monarquia, criação da república, ascensão de Napoleão, época do terror... quer dizer, ele está num período de extremas modificações revolucionárias e principalmente ele está num período de conturbados sentimentos, conceitos, sensações.
A própria burguesia quando aparece criticando a aristocracia ela aparece como revolucionária, passa a ser uma conservadora, moralista. Os aristocratas... Sade é formado numa aristocracia extremamente conservadora, arraigada aos preceitos e ao mesmo tempo ele rompe com essa aristocracia que o sustenta.
Era um período de transição o que exige das pessoas transgressões... ele é privilegiado nesse sentido.
A Academia se instaura, pelo menos a Academia atual, a brasileira se instaura numa noção muito autoritária, os conceitos tem que ter bases científicas, tem que seguir uma lógica racionalista... o oposto do Sade, ele é eminentemente transgressor das normas estabelecidas, então fica difícil trabalhar  Sade na Academia.
E quem trabalha Sade na Academia está sujeito a passar como tresloucado, insensível, incapaz,  fazer todos engolirem a força uma transgressão mais parecida com a loucura, devaneio do que realmente uma postura revolucionária, ou de reivindicações, ou de resistência.


PH – Libertinagem é uma palavra típica do século 18 e libertino é um tipo social da época. Pode-se afirmar que essas palavras o transformou em vilão, acusado de perversão e homicídio, para depois o colocar entre os gênios da literatura e da filosofia?

Eliana Paiva – Olha, toda instituição tem seus interesses, assim como a Academia, os hospitais psiquiátricos e o estado também tem seus interesses.
Sabe-se muito bem que na versão Sadiana, todas as transgressões ou se tornaram caso de polícia ou se tornaram casos patológicos. São as duas maneiras para reprimir, ambas reprimiam com as prisões com as formas de enclausuramento. Essas formas de enclausuramento vinham com os remédios para dormir, com os choques elétricos, camisa-de-força.
São formas de enclausurar isso é certo, tanto a polícia como a medicina, usou com o tempo medidas de enclausurar , todavia, o termo libertinagem não é contra a liberdade, é contra a repressão! Esse é que é o grande problema para Sade. O Sade propõe uma abertura, uma ampliação, uma possibilidade de luta dos homens contra a opressão, contra o enclausuramento, contra as prisões.
Só que por interesse dessas instituições passam ideologicamente dizendo que Sade foge do controle, daí surge os termos liberdade e libertinagem para provar que são termos diferentes e quem escolhe a libertinagem são os loucos, os tresloucados, os transgressores, os errados... mas isso é programado ideologicamente, uma maneira de dar novamente limite a liberdade.
Mas de fato o que Sade quer é destruir, desmontar todas as formas de enclausuramento. E um enclausuramento pensado de forma sorrateira, é justamente a moral, a moral cristã, de todas as formas religiosas, mas especificamente a cristã.
Nietzsche vai fazer as mesmas reflexões, com a moral que aparece a partir de então na Academia; também com Sartre, um dos pensadores considerado revolucionário de uma nova liberdade; mas aparece sempre como um contraponto as opressões.
O grande problema na Academia é falar sobre liberdade! Morrem de medo disso... ela prefere falar da violência, da repressão, das prisões, do enclausuramento, do que falar da liberdade.
Ela prefere falar de coisas que reprimem e tornam os homens mais controláveis de diversas formas com palavras como: sociabilidade, controle social, sustentabilidade (risos); do que trabalhar idéias alternativas, opções, liberdade.
A Academia é extremamente repressora como a ciência, como todas as outras instituições, da igreja, do estado, da saúde.



PH – Sade apresenta em sua obra os maiores delírios de libertinagem, isso pode ser comprovado na obra Os 120 Dias de Sodoma, e apresenta pontos fundamentais como por exemplo: como lidar com nossas paixões mais cruéis e a vaidade.
Até que ponto a preocupação obsessiva com a própria imagem pode esconder um grave distúrbio psiquiátrico, com a chamada feiúra imaginária?

Eliana Paiva – Esse livro é muito interessante, 120 Dias de Sodoma é um romance e vai tentar falar exatamente dessa parte instintiva que é própria do homem.
Sade não é considerado um filósofo, ele é considerado um literato, eu acho que ele não tem uma preocupação em se tornar filósofo, mas com as questões filosóficas.
E quando ele escreve Os 120 Dias de Sodoma a impressão que dá é que ele está preocupado exatamente com esse humor negro dos homens que todos nós temos e que ainda está no nível da natureza humana, ele nos mostra a natureza da vida, o absurdo humano de todos nascerem para morrer. Então ele está preocupado em trabalhar aos trejeitos humanos, ao humor... o que todo mundo quer negar (risos).
A igreja coloca isso como uma forma negativa e Sade vai dizer de jeito nenhum, não é negativo, faz parte viver com esse nível do humor humano, as suas oscilações, as suas ambigüidades, os seus níveis de paradoxos, pois isso faz parte da vida humana, a vida humana que é assim.
Quando ele escreve isso, escreve como forma de tragédia, não escreve como forma de cômico, nem forma de uma reflexão filosófica, escreve em forma de tragédia. O que isso significa? Que a tragédia é circunstância do tempo, ao momento de transição, ao momento de muita repressão, de governos muito repressores, que mata milhões de pessoas num período muito curto sem um motivo concreto!
Como o estado faz lágrimas de sangue sem motivo concreto e os humanos que têm seu instinto não podem ter o direito de se rebelar? O que ele está gritando é isso, ele dá um grito de alerta, que provoca indignação, uma tentativa de dizer: acorda minha gente! Vocês estão deixando matar o que há de mais humano que é a liberdade. Em nome de uma artificialidade, do harmônico, do perfeito, do bom! Como se só isso existisse. A natureza não é maniqueísta.


PH – O termo sadismo tornou-se famoso em 1866 quando usado pelo psiquiatra alemão Richard Freiherr Von Krafft-Ebring. Em que consiste essa prática e como a através de que atividades ela pode ser aplicada a contemporaneidade?

Eliana Paiva – Sadismo se opõe a masoquismo (...) 


PH – Mais de 250 milhões de pessoas, ao redor do mundo, se encontram na mais profunda depressão. Razões emocionais podem tê-las empurrado ao fundo do poço. Até que ponto as medidas terapêuticas hoje em voga podem influenciar as relações interpessoais?

Eliana Paiva – Olha, o gravíssimo problemas é que a gente não se confronta com nossos sentimentos, sensações,  pensamentos, palavras... a gente está de alguma maneira recalcando, reprimindo, a gente acaba reprimindo tudo. E isso vai somatizar em algum canto, nas doenças.
Nunca se esteve tão doente por única e exclusivamente medo, covardia de se confrontar com seus sentimentos, sentidos, atos, ações. Nunca estivemos tão omissos de olhar a nós mesmos!
Então as doenças vão aparecendo, além do mais tem outro pólo: nunca se entregou tanto as nossas vidas para outras pessoas: é o engenheiro que faz nossa casa, é o arquiteto que decora, o paisagista que coloca as plantas, o modista que faz nossas roupas, o maitre que nos serve, o cozinheiro que faz nossas comidas... E a gente não faz nada, a gente apenas vegeta, só pode é ficar doente, você não faz nada e você faz tudo para controlar o modelo de vida dos outros. Você é um belo bibelô que recebe tudo feito, não é capaz de construir nada, você não se mostra humano em momento nenhum! Cada vez mais você se mostra bibelô, se mostra como um objeto de manuseio. Você não é mais! Agora és um padrão que dizem que você é!
As doenças são causadas pela falta do ser humano trabalhar seus estilos de vida (...)


PH – Qual sua posição diante das medidas terapêuticas aplicadas as pessoas que sofrem desses males, síndrome do pânico e depressão, com o uso excessivo de medicamentos?

Eliana Paiva – É lógico que o medicamento aparece como fuga, a incapacidade de resolver seus próprios problemas, com os outros, com as situações... então é muito mais fácil tomar o remédio, é mais cômodo.
O remédio faz aquilo que você não precisa fazer, o que no caso o remédio não faz...(risos).
Ele ameniza momentaneamente, ele adia... é um paliativo, mas ele não vai resolver (...)


PH – Alguns psiquiatras dizem aos seus pacientes: “Não pense que azar eu preciso tomar um remédio! Pense que bom que existe um remédio para melhorar minha vida!”
A partir dessa declaração, pode-se afirmar que a vida do ser humano tornou-se mais artificial?

Eliana Paiva – Não apenas mais artificial, mais distante da condição humana, a vida humana está cada vez mais distante da sua vida humana.
As pessoas sempre tiveram uma preocupação com os objetos... manuseio de capital acumulado(...)


PH – Recentemente foi veiculada uma manchete no Jornal O Povo a respeito de crianças que possuem sintomas de depressão e síndrome do pânico. Até que ponto a internet, o videogame e o bullyng podem agravar essa situação?

Eliana Paiva – Todas as formas, porque reprimem as pessoas, ficam isoladas, mas aparentemente dão a idéia que elas podem qualquer coisa, aparentemente ela tem uma ilusão que ela pode qualquer coisa, mas ela não se mostra, ela está sempre falando de algo que não é ela mesma, sempre vai causar o pânico e a depressão.
Pessoas que moram na mesma casa e falam por celular com os membros da família que estão na mesma casa, os colegas no mesmo local de trabalho falam pela internet, pela noção virtual ao invés de se falar tête-à-tête, de se mostrar como é... aí resultado: o photoshop tira as rugas das fotos para aparentar uma coisa que ela não é, o nome não é o que ela tem, o sentimento que ela expressa não é o que ela sente (...)
Toda essa fantasia, essa mentira é repressão!
E o que seria a liberdade sem o confronto, sem a capacidade de dialogar dos seus sentimentos?
Se isto é a causa em si, acho que não. O estado é que está programando essa repressão.


PH – Em uma de suas explanações a respeito do existencialismo, a senhora  afirmou que a grande tragédia humana é o confronto com sua própria angústia.
Como lidar com suas verdades, mentiras e frustrações sem recorrer a pílula da felicidade, a medicamentos, como por exemplo o conhecido PROZAC?

Eliana Paiva – Já deu para notar que eu acho que os remédios não tem o efeito a que se propõem.
As doenças estão do jeito que estão devido a nossa incapacidade de reagir, a nossa sustentação na dependência, no vazio, na indiferença, na incapacidade de nos tornarmos humanos.
Então os remédios de nada vão adiantar, vão só enriquecer os grandes laboratórios, gerar dependências naturais e espontâneas.
E a grande sacada do existencialismo foi sair da natureza humana e passar para a condição humana, e a condição humana é estar se arriscando, se equivocando... e para isso não precisa de remédios, precisa de coragem para agir! (...)


PH – Pode-se afirmar que depressão e síndrome do pânico tornaram-se doenças da moda e um mercado extremamente lucrativo no setor editorial com os manuais de auto-ajuda, apresentando formas miraculosas de como encontrar a felicidade?

Eliana Paiva – Eu concordo. Essa idéia de que o ser humano precisa de felicidade para viver é o sustentáculo da religião, das escolas autoritárias, dos medicamentos, de todas as alternativas institucionalizantes, todas!
O que o ser humano precisa é estimular condição humana (...)


PH – O célebre médico grego Hipócrates relatou o caso de uma mulher que sofria de depressão, uma doença mais freqüente entre as mulheres. Como a filosofia encara esse distúrbio tão comum atualmente?

Eliana Paiva – Primeiro a filosofia não encara como distúrbio (risos), a filosofia encara como uma das formas de comportamento humano.
Segundo, o fato da depressão ser mais freqüente nas mulheres do que nos homens também é um preconceito. Mas esse preconceito tem uma razão de ser por que as mulheres são mais reprimidas, portanto tem mais medo, tem mais pânico.
Mas elas sustentam essa repressão, elas gostam dessa repressão e elas reproduzem essa repressão.
As mães sustentam que a filha deve ser feminina, meiga e obediente ao marido, e isso não é uma frase do século passado não, em pleno século XXI as mães continuam reproduzindo isso.
E para os homens, as mães ensinam que eles devem ser os garanhões, manter sua força de macho, ter suas idéias masculinas impostas (...).


PH – Em que sentido a condição humana se opões a prática de auto-ajuda?

Eliana Paiva – A prática de auto-ajuda está atrelada a uma busca de felicidade, busca da tranqüilidade, da paz espiritual e isso nós temos aí uma literatura enorme de todas as áreas do saber, da psicologia, teologia, psiquiatria, da biologia, da educação física todas essas áreas do saber ligadas a idéia de felicidade (...)

             


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Eliana Sales Paiva
Professora Mestra em filosofia pela UFMG e UFC.
Professora titular da UECE
Coordenadora do grupo de estudos Sartre (GES)
Editora da Revista Cadernos Sartre (ISSN: 1983-6473)
Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/5457393516281834
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Bastidores:















Um comentário:

  1. Parabens Randerson vc está bem no rastro da história ok... abraço eu joabe o poeta historiador...

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