NIXON E O ESCÂNDALO WATERGATE




Como prometi aqui estou para escrever uma postagem completa sobre Richard Nixon e o escândalo Watergate. Escrevo sobre ele também porque este ano comemora-se o seu centenário de nascimento.

Acompanhe: advogado como os seus heróis da história norte-americana, dedicado e trabalhador. Entrou na política por indicação de um diretor de escola que sabia reconhecer o valor de um aluno honesto e focado em resultados.
Eleito deputado, senador, vice-presidente e, finalmente, após perder uma corrida à Casa Branca, presidente dos Estados Unidos.

Nixon construiu seu nome baseando-se numa conduta de profissionalismo e muito, mas muito, trabalho. Teria sido Nixon fruto de seu próprio erro ou seu erro foi fruto de um homem que não aprendeu a aceitar a derrota?

COMO TUDO COMEÇOU

De forma parecida com John Kennedy(1917-1963), que também será biografado aqui no site, a história de Richard Milhous Nixon também começa muito longe dos Estados Unidos, no Reino Unido. Em 1690 um membro da família Milhous deixou a Irlanda em busca de uma vida melhor no Novo Mundo, aportando em Delaware e o primeiro Nixon deixou a mesma Irlanda em 1753, chegando também em Delaware.

Esse local não era uma feliz coincidência. Não se sabe exatamente qual era a situação econômica dos Milhous e dos Nixon na Irlanda, mas o objetivo dos Milhous era criar raízes num lugar para que pudessem cultivar suas seitas quacre.

Os quacres eram membros de uma facção protestante, conhecida também como Sociedade de Amigos, fundada na Inglaterra no século XVII e difundida principalmente nos Estados Unidos, em colônias com características liberais de Delaware.

Seus praticantes não admitem sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, não pegam em armas e não aceitam hierarquia eclesiástica.

Aí vai uma curiosidade! Conta-se que um dos ancestrais de Richard Nixon cruzou o Delaware com o general George Washington(1732-1799), tendo participado ativamente da Guerra de Independência, iniciada em 1776, contra George III(1738-1820), do Reino Unido.

Após isso os Milhous e os Nixon cruzaram o país através de suas gerações, sem nunca terem estabelecido qualquer tipo de relação entre si. Só que o tempo não falha. E foi só uma questão de tempo para que as duas famílias pudessem se encontrar.

Em 1887, um diretor da Sociedade de Amigos em busca de paz e muita tranquilidade sentiu-se atraído por uma cidade chamada Whittier, no sul do Estado. Outra característica é que o vilarejo situava-se apenas 20 quilômetros de Los Angeles.

Praticamente todos foram em busca deste vilarejo. Hannah Milhous deixou Indiana no final do século XIX junto com sua família rumo a Whittier.
Frank Nixon, já no início do século XX, também chegou em Whittier.

Em fevereiro de 1908, Frank e Hannah se conheceram. Apenas quatro meses mais tarde, em junho os jovens se casaram e Frank se converteu em quacre, indo morar em uma pequena vila a 50 quilômetros de distância de Los Angeles.

O primeiro filho do casal nasceu em 1909, Harold. O segundo herdeiro viria apenas quatro anos depois. Na noite de 9 de janeiro de 1913, Richard Milhous Nixon nasceu.

Como o objetivo do site é também descobrir curiosidades, ou seja, as pistas da história, descobri que quando ele soltou o primeiro berreiro, sua avó, Elmira Milhous, que estava presente no momento do parto disse: ‘Com um estridente berreiro assim, certamente será pregador ou advogado.’

Depois de Richard, vieram Donald, em 1914; Arthur, 1918 e Edward, 1930.
Com a chegada dos carros automotores Frank imaginava que poderia tirar proveito daquela situação, foi nesse período que mudou-se para Whittier onde abriu um posto de gasolina.

Só que ele escolhera o ponto no lugar errado, pois havia duas opções, e em uma delas foi descoberto petróleo suficiente para encher 25 barris diários, Frank escolheu justamente a que estava sem reserva de ouro negro.
O que pensar de uma decisão como essa hein? Difícil não é? Já que a fortuna estava tão próxima das mãos.

O pequeno Richard Nixon foi moldando seu caráter aos poucos à medida que ia crescendo.

Quando completou dez anos ganhou de sua tia Edith um enorme volume da história dos Estados Unidos, ao ler e reler várias vezes este compêndio observou que a trajetória dos grandes heróis norte-americanos como John Adams, Thomas Jefferson, James Madison e Abraham Lincoln tinham pelo menos duas coisas em comum: todos eram advogados e todos tornaram-se presidente dos Estados Unidos.

‘Nixon nasceu para ser advogado!.’ Bradava uma de suas professoras quando ele apresentava os trabalhos escolares na escola elementar. Nixon deixou-se levar pelo caminho mais natural, deixar de ser maquinista para ser advogado.

UM JOVEM CONGRESSISTA

Quando Nixon estava com 17 anos de idade, ingressou no Whittier College, uma instituição de ensino com rígidos padrões de qualidade, e para não perder a tradição, esta escola mantinha fraternidades estudantis.

Na ocasião havia o grupo dos Franklin, um grupo composto por alunos mais abstados. Quando Nixon entrou na escola, fundou os Orthagonians que funcionava como uma espécie de oposição. Nixon compôs o hino do seu grupo e foi eleito presidente da classe dos calouros.

Logo estava participando de debates com seus adversários ideológicos sobre assuntos determinados pelos professores.
O fato é que em mais de 50 debates, venceu a grande maioria. Sua habilidade em retórica era gigantesca.

Em 1934, recebeu o diploma pelo Whittier College. Durante a depressão de 1929 Nixon poderia se considerar um felizardo já que recebeu aporte de seus pais e não precisou procurar emprego.
Agora o que ele mais queria era ingressar em uma faculdade de direito, de preferência que não pudesse pagar mensalidade.

O destino resolveu sorrir para Nixon, por se tratar de um grande aluno, Walter F. Dexter, diretor do Whittier College resolveu redigir uma carta de recomendação a Universidade Duke, em Durham, Carolina do Norte (do outro lado do país), declarando: ‘Acredito que Nixon virá a ser um importante, quando não um dos grandes, líderes dos Estados Unidos.’ Em pouco tempo, Nixon foi admitido em Duke ganhando uma bolsa de estudos e um emprego, recebendo 35 centavos de dólar por hora.

Em sua turma, haviam 44 alunos, de 37 estados diferentes; só que Nixon estava com saudade de casa.

Em 1936 ele partiu em busca de estágio em Nova York junto com dois colegas. Bateram à porta de quase todos os escritórios de advocacia da cidade.
Os dois colegas conseguiram ser contratados, já Nixon recebeu apenas promessas de uma das firmas.

Anos mais tarde em 1958, quando era vice-presidente da República, ele comentou: ‘Se tivessem me dado um emprego, tenho certeza de que estaria lá agora, como um advogado de empresa e não como vice-presidente da república.’
Em 1937 foi indicado a trabalhar no FBI(Federal Bureau os Investigation) mas não deu certo, o FBI passou por um corte de verbas, cancelando sua contratação o que o obrigou a procurar emprego como advogado na Califórnia.

Numa certa ocasião foi assistir a uma peça teatral em Whittier e lá ficou encantado por Pat Ryan, uma professora recém-formada que participara da trupe. Conta-se que naquela mesma noite ele pediu a mão dela em casamento. Talvez seja o primeiro registro da vida de Nixon que ele agia por impulso, pois sempre fora muito cauteloso, sabendo onde estava pisando.
Pat obviamente o achou meio maluco, mas com o passar do tempo acabou cedendo.

Em 21 de junho de 1940, Nixon e Pat se casaram, pouco antes dos japonese atacarem Pearl Harbor.

Em 1946 Richard Nixon foi indicado por Dexter, o mesmo que o indicara ao FBI, a participar da eleição no Congresso. Ele acabou vencendo a disputa contra Voorhis, um homem habilidoso, inteligente, frio e calculista que não perdia uma eleição desde 1936.

Seu mandato seria de dois anos e mostrou-se dedicado como sempre. Participou de uma comissão que elaborava o Plano Marshall, o plano de ajuda econômica a Europa pós-Segunda Guerra Mundial e acabou fazendo amizade com outro congressista novato, o representante democrata de Massachusetts, John Fitzgerald Kennedy.

O AMOR PELO PODER

Em 3 de novembro de 1949, Nixon declarou que pretendia o Senado, havia tomado gosto pela vida pública.

Quando venceu as primárias em 1950 descobriu que sua adversária era uma mulher: Helen Gahagan Douglas (1900-1980). Ele chegou a ser desleal com Helen: acusou-a de simpatia com o comunismo, assunto que você caro leitor deve saber que naquela época nos Estados Unidos estava em voga.

Conseguiu vencê-la por uma margem expressiva de votos.

Agora observe: conseguiu ser advogado e senador. Qual seria o próximo sonho?
Certamente seria um maior, pois em 1952 tornou-se vice-presidente dos Estados Unidos ao lado do general e presidente David Eisenhower(1890-1969). Detalhe: ele estava com apenas 39 anos.

No entanto foi envolvido no primeiro escândalo da sua vida: foi acusado de sua campanha ter sido financiada por caixa dois, mas logo recorreu à televisão para num discurso apaixonado se defender das acusações e emocionar a população.
Como vice-presidente desenvolveu o famoso debate da cozinha, um pleito sobre os méritos do capitalismo e do comunismo.

Quando li a biografia de Nixon para compor esta postagem percebi que quanto mais Nixon avançava na carreira menos escolhas ele tinha. Digo isso porque sua próxima tacada seria a presidência, era inevitável, e assim aconteceu.

A CAMPANHA PRESIDENCIAL DE 1960




Nixon não tinha mais como recuar. Em 1958, era vice-presidente e já começava a despontar como candidato à presidência.
Ele iniciou sua campanha com discursos inflamados sobre o assunto que dominava o momento: o comunismo. Pregava a diferença entre o regime soviético e a liberdade.

Foi com esse espírito que se engajou na disputa presidencial com um candidato muito jovem ainda: John Kennedy.
Logo depois iniciaram-se os debates, Nixon tinha 50% das intenções de votos, Kennedy com 44% e 6% de pessoas indecisas. Agora vou ser bem sincero com você, essa vantagem também se justifica pelo fato de Nixon ocupar o cargo de vice-presidente. Concorda?

Nixon estava empenhado em ganhar, e quem em sã consciência não estaria? Ele levou sua candidatura a todos os 50 estados da União, mas isso não foi o suficiente, pois ele começou a declinar antes mesmo dos debates: na organização dos assuntos que os candidatos iriam abordar.

Vou ser mais específico, a divisão ficou assim: política interna e política externa. Nixon calculou mal pois sentia-se mais à vontade para falar sobre política externa, concordando que estes seriam os últimos debates.
Como ficou provado anos mais tarde, a maioria esmagadora da população assistiu apenas aos debates iniciais, porque mostravam-se mais interessados nos assuntos internos dos Estados Unidos.

Diante disto Nixon partiu para o estúdio de televisão como sua formação de vida, a de um advogado, falando sempre para seu oponente como se um grupo de jurados estivesse presente.

Kennedy ao contrário falava para as câmeras sempre sorrindo.
Nixon também se perdeu no uso de cosméticos. Sua barba crescia muito rápido e dava a impressão que Kennedy era mais saudável, mais asseado.

Nixon também descontrolou-se numa suposta ansiedade: ele olhava com muita frequência para o relógio. Mas não era ansiedade, como ele tinha muito conhecimento sobre variados assuntos ele tinha medo de não ter tempo para abordar tudo que sabia, por isso olhava muito para o relógio.
Esse foi o golpe final.

Nixon foi caindo nas pesquisas vertiginosamente. Acompanhe:
Agosto – Nixon > 53% | Kennedy > 47%
Outubro – Nixon > 46% | Kennedy > 49% | Indecisos > 5%
Novembro – Kennedy foi eleito no dia 8 de novembro de 1960 o 35° presidente dos Estados Unidos.
Nixon bradou aos jornais: ‘Perdi, e chega!’

ESTOU MAIS VIVO DO QUE NUNCA!




Nixon não conseguia ficar de fora da política, Candidatou-se ao governo da Califórnia e perdeu. A população o considerou morto.
Esse foi o grande erro dos adversários. Ele apenas queria tempo para se organizar melhor para um dia chegar ao posto máximo da política.

Nixon estava mais vivo do que nunca. Como sua marca era a persistência, engajou-se na campanha presidencial de 1968.

Dessa vez venceu Hubert Horatio Humphrey (1911-1978), tornando-se o 37° presidente dos Estados Unidos. Finalmente ele chegou ao topo. Ele só parece ter se esquecido que quanto mais alto, maior é o tombo.
O principal acontecimento mundial durante sua gestão foi a Guerra do Vietnã. Ele conduziu muito bem sua política externa, terminando o conflito da melhor forma que lhe conviesse, só que implantou a vietnamização.

Também deu continuidade ao programa espacial e estreitou seu relacionamento com Mao Tse Tung (1893-1976), o líder político da China. Seu governo foi muito bom, porém Nixon jogou tudo no lixo.

O CASO WATERGATE

Seu castelo começou a ruir quando, no início de 1972, ano de eleição presidencial, um grupo de ex-agentes da CIA (Central Intelligence Agency) invadiu o QG(quartel-general) democrata no hotel Watergate, em Washington, instalando escutas telefônicas e fotografando todos os tipos de documentos.

Se não bastasse um erro, os homens de Nixon insistiram na falha. Alguns homens foram pegos pelo guarda de segurança Frank Wills (1948-2000), que imediatamente acionou a polícia local.

A desgraça estava consumada. Mas o pavio da grande bomba Watergate parecia ser longo.
O secretário de imprensa de Nixon, Ronald Ziegler, abafou o caso e Nixon foi reeleito em 1972, com mais de 60% dos votos populares, mas o escândalo acabou estourando alguns meses depois graças à imprensa.

Os repórteres do The Washington Post, revelaram ao mundo o escândalo Watergate. No entanto eles contaram com a ajuda de um informante misterioso, conhecido apenas como ‘Garganta Profunda’. Os jornalistas lhe prometeram não revelar seu nome até sua morte.

Hoje se sabe que o Garganta Profunda era o ex-número dois do FBI: W. Mark Felt.
Na primavera de 1973, um comitê do Senado começou uma investigação sobre o caso Watergate, que durou dois meses.
Em pouco tempo os noticiários televisivos começaram a noticiar o assunto como uma novela da vida real, apresentando fatos cortados, como se fossem cenas do ‘próximo capítulo’.

Aos poucos a população passou a tomar contato com conspirações, relações desleais, subornos, entre outras ações nada dignas de governantes.
Um assessor presidencial em julho de 1973 acabou confessando que Nixon realmente havia gravado tudo o que podia em Watergate e que fez uso desse material na Casa Branca.

Um ano mais tarde, em 24 de julho de 1974, a situação de Nixon tornara-se praticamente insustentável. A Suprema Corte dos Estados Unidos, por unanimidade requisitou que Nixon entregasse as fitas, documentos, fotografias, enfim, tudo que foi ilegalmente apropriado em Watergate.

Três dias depois, a Comissão de Justiça da Câmara de Representantes votou em 27 contra e 11 a favor do impeachment do presidente.
É, Nixon estava num mar de lama, sua única opção foi renunciar em 9 de agosto, sendo substituído pelo vice-presidente Gerald Ford, nascido em 1913.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nixon demonstrou ser um homem aguerrido, em busca de tudo para ter o poder nas mãos, não gostava de perder. A história de Nixon como você deve ter percebido é muito interessante do ponto de vista político. Foi um político meteoro, podemos constatar. Mas não um qualquer político. Conseguiu habilmente discernir sua conduta de forma metódica e arrojada.

Seu calcanhar de Aquilles foi Watergate e podemos perceber o quanto isso lhe custou caro.

Especialistas políticos afirmaram que a autoridade da figura de presidente dos Estados Unidos só foi restabelecida em 1981, com o presidente Ronald Reagan (1911-2004).

Richard Milhous Nixon foi um homem que baseou sua vida no estudo e trabalho, deixando a longínqua Califórnia em troca da poderosa Casa Branca. Morreu em 22 de abril de 1994, em Nova York, com 81 anos de idade, vítima de complicações de saúde.

INDICAÇÃO DE FILME

FROST/NIXON

Título Original: Frost/Nixon
Sinopse: Adaptação da montagem teatral escrita por Peter Morgan, a história conta como foi a dramática entrevista do presidente americano Richard Nixon ao apresentador de TV britânico David Frost logo após o escândalo político de Watergate, em 1972.
Em DVD - 2008 (Mundial) 122 min  -  Biografia, Drama,
»Direção: Ron HowardRoteiro: Peter MorganElenco:
Andy Milder (Frank Gannon)
Clint Howard (Lloyd Davis)
Frank Langella (Richard Nixon)
Gabriel Jarret (Ken Khachigian)
Produtores: Brian Grazer, Eric Fellner, mais »Países de Origem: Estados Unidos da AméricaEstreia Mundial: 2008 Estreia Brasil: 6 de Março de 2009.




Trailer do filme:




Referência bibliográfica

Nixon: um estudo político
Autores: Earl Mazo e Stephen Hess (tradução de Luiz Cláudio de Castro e Costa.
Editora: Bloch
Ano: 1970

OBS: Este livro encontrei em um sebo, por ser muito antigo é capaz que você encontre na estante virtual.


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